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Sem amarras do Estado, negócios com energia elétrica criam um mercado moderno e próspero

Lavor, da União: lucro multiplicado por 10
Nos primeiros anos da infância, quando ainda vivia em Iguatu, no interior do Ceará, o empresário Francisco de Lavor não conhecia a luz elétrica. Só soube dos confortos proporcionados pela energia aos 7 anos, quando, no começo da década de 60, desembarcou de um pau-de-arara na iluminada cidade de São Paulo. Hoje, Lavor desfruta como poucos os benefícios da eletricidade. Sua empresa, a União Energia, faz parte de um grupo de companhias especializadas em comercializar energia no mercado livre, o mais novo, ousado e lucrativo segmento do setor. Como ela, outras 42 comercializadoras de energia atuam nesse mercado, em sua maioria empresas pequenas, com cerca de 20 funcionários, mas que prestam serviços sofisticados para grandes corporações e faturam milhões. No ano passado, elas movimentaram mais de 12 bilhões de reais, transacionando 24% de toda a energia consumida no país. O que caracteriza esse mercado, num setor controlado pelo governo, é a liberdade de negociação. O cliente determina como e quanto quer comprar e o prazo de entrega da energia. O valor também é negociado e costuma ser até 30% mais baixo que o preço tradicional das distribuidoras. Graças a essas vantagens, o mercado livre cresceu cerca de 30% ao ano desde o começo da década e hoje abastece 600 das maiores empresas do país, como Sadia, Usiminas e Telefônica. "Ele é a face mais moderna do setor", diz Lindolfo Paixão, presidente do conselho de administração da Associação Nacional de Consumidores de Energia. "A maior prova disso está na visão, na criatividade e no sucesso dos empresários que apostaram nele."
O cearense Lavor é um exemplo desse sucesso. Migrante nordestino, cresceu dividindo dois cômodos com os quatro irmãos e os pais num cortiço em Ermelino Matarazzo, na periferia de São Paulo. Foi engraxate, auxiliar de padeiro e office-boy. Na juventude, trabalhava durante o dia para custear o curso noturno de economia. Começou a mudar de vida quando, ainda estudante, conseguiu um emprego no antigo frigorífico Swift Armour, como auxiliar de operações na Bolsa de Mercadorias de São Paulo. Depois passou por uma corretora, onde adquiriu experiência como operador de mercado financeiro e foi enviado para estudar nos Estados Unidos. Em 1983, fundou a União Corretora para negociar commodities. O negócio pouco mudou até 2001, quando veio o racionamento e Lavor se deu conta de que havia uma enorme oportunidade a ser explorada. O racionamento era obrigatório, mas nem todas as empresas tinham condições de economizar energia. Para contornar o problema, o governo autorizou companhias que reduziam o consumo a vender as sobras de energia para aquelas que não conseguiam poupar. Essa transação foi feita por meio de certificados. "Usamos os conhecimentos sobre o mercado de contratos agrícolas para intermediar a venda dos certificados", diz Lavor. "Quando o racionamento terminou, estava claro que era possível negociar energia do mesmo jeito que soja, milho e açúcar." Hoje, mais de 60% do faturamento de 200 milhões de reais por ano da União vem das transações com energia. "Com o mercado livre, a empresa multiplicou por 10 seu faturamento", diz Lavor.

Para que o mercado livre de energia deslanchasse, o país precisou mudar de mentalidade e de legislação. Desde a década de 30, quando o código de águas trouxe a primeira regulação do setor, a energia foi vista como um serviço público subordinado ao Estado. Nos anos 70 e 80, o caráter nacionalista do regime militar aprofundou essa percepção e criaram-se grandes estatais no setor. A idéia de que energia é um produto passível de comercialização só ganhou corpo nos anos 90, no governo Fernando Henrique Cardoso, quando o mercado livre foi imaginado. Participaram de sua concepção cerca de 200 especialistas brasileiros e a consultoria inglesa Coopers & Lybrand (hoje PricewaterhouseCoopers) -- que foi buscar inspiração no modelo de mercado livre da Inglaterra, criado logo após a Segunda Guerra. O que se imaginou para o Brasil foi a convivência de dois mercados, um aberto à competição, outro cativo, onde atuam as distribuidoras e há controle estreito do Estado. A lei previa crescimento gradual do mercado livre -- inicialmente ele seria aberto aos grandes consumidores industriais, depois aos empreendimentos menores e por fim aos consumidores residenciais. Por enquanto, apenas a primeira fase foi implantada.
Algumas das empresas que melhor estão aproveitando a oportunidade aberta pelo mercado livre são formadas por jovens empreendedores. É o caso da Delta Energia, fundada em 2001 por profissionais na faixa de 26 anos com vontade de inovar. Os sócios não têm salas e sentam-se em uma longa bancada onde está acomodada a maioria dos 20 funcionários. Os riscos e os preços dos contratos são avaliados por meio de técnicas inspiradas no mercado financeiro. Na principal sala de reuniões da empresa, o tradicional equipamento de slide divide espaço com o videogame PlayStation 3, que serve de passatempo no final do expediente. Por causa da pouca idade e do estilo arrojado, os sócios foram apelidados no mercado de "os meninos da Delta" -- apesar da habilidade comprovada para fechar negócios de gente grande. A Delta hoje cuida do fornecimento de energia de 15% do mercado industrial. A empresa assessorou uma das maiores transações já feitas no mercado livre -- o contrato no valor de 1 bilhão de reais celebrado em 2004 entre Cemig e o sistema Usiminas-Cosipa. Os sócios não divulgam o faturamento, mas o mercado estima que já passou de 200 milhões de reais.
Para conquistar as maiores empresas do país, as comercializadoras precisaram montar uma estrutura eficiente e criativa. Veja o exemplo da Comerc, dos empresários Marcelo Parodi e Cristopher Vlavianos, uma das mais bem-sucedidas do setor. Tem apenas 23 funcionários. Mas o grupo foi recrutado em instituições financeiras de primeira linha, como JP Morgan e Banco Safra. Para valorizar e reter esses talentos, os fundadores transformaram em sócios 12 deles. A empresa também conta com um conselho consultivo que avalia o mercado e traça metas. Integram o conselho profissionais como o economista Roberto Teixeira da Costa e Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. A Comerc especializou-se na gestão da energia de unidades industriais de 65 grandes grupos, como Sadia, Dixie Toga e Kimberly-Clark. Um de seus legados para o setor foi ter lançado no Brasil os chamados leilões reversos de energia -- pregões que começam com um lance máximo e têm como vencedor a geradora que oferecer a energia pelo menor preço. Entre 2003 e 2005, a Comerc organizou 11 leilões desse tipo, que comercializaram 850 megawatts médios, energia suficiente para abastecer dois estados do Rio de Janeiro por um ano. Esse tipo de negociação caiu nas graças do governo, e hoje todos os leilões públicos oficiais são reversos.
Muita gente previu que, após a expansão dos últimos anos, o mercado livre pararia de crescer e ficaria restrito a grandes consumidores de energia. No começo do ano, uma resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) turbinou as possibilidades. Daqui para a frente, as comercializadoras podem ampliar os serviços para unidades menores, como agências bancárias, lojas de supermercados, shoppings e prédios de escritório. O serviço deve ser feito especificamente com a chamada energia alternativa, produzida por pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e usinas de biomassa. Os especialistas estimam que a medida tende a acelerar a migração das empresas para o mercado livre e elevar o número de clientes dos atuais 600 para cerca de 5 000. Em cinco anos, o mercado livre tem potencial para representar quase 40% do consumo nacional. Entre as empresas que estudam aderir à energia alternativa estão o Bradesco, o Itaú e o Wal-Mart. Na Service Energy, especializada em transações com fontes alternativas, a medida teve efeito imediato. A empresa administra 30% do fornecimento de energia da Telefônica e 35% do da Telemar com PCHs e já trabalha para dobrar essa participação até o ano que vem. Há grande euforia principalmente entre as pequenas geradoras. A Brennand Energia, controlada pela família Brennand, uma das mais tradicionais de Pernambuco, ampliou suas apostas no setor. A empresa já tem seis PCHs e está construindo mais seis. "Acreditamos no crescimento do negócio de energia estimulados pelo mercado livre", diz Mozart Siqueira Campos Araújo, presidente da Brennand.
Paradoxalmente, tamanho sucesso tem incomodado gente graúda do próprio governo, em tese um dos maiores interessados no bom funcionamento do mercado de energia. O Ministério das Minas e Energia faz questão de manter o controle sobre a gestão e a expansão do setor, e há integrantes da atual administração que são contrários à idéia de que energia é um produto. No novo modelo do setor elétrico, concebido pela ministra Dilma Rousseff, foram incluídas várias regras que podem comprometer a expansão futura do mercado livre. Por exemplo, as comercializadoras não podem participar dos leilões que vendem energia de usinas que estão sendo construídas (a chamada energia nova). "Precisamos discutir que tipo de crescimento queremos para o país", diz Paulo Pedrosa, presidente da Associação Brasileira dos Agentes Comercializadores de Energia Elétrica. "A expansão feita sob o controle e os interesses do Estado ou a geração de riqueza por meio da livre competição."
Fonte: Revista Exame | Data: 19/04/2007
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